Feminazi sim.*

A origem do termo “feminazi” é imbecil, rasteira, superficial, então me espanta que o termo tenha conseguido ser tão acertado. Esse post é um estudo sobre as proximidades entre a misandria que se fantasia de feminismo hoje e o nazi-fascismo. Acompanhe o raciocínio.

“O fascismo é fascinante e deixa a gente ignorante fascinada.”

GESSINGER, H. 1986 nos lembra na obra que abre sua discografia o que fomos induzidos a esquecer a partir da demonização do regime nazista: que o fascismo é sedutor. Seu poder de sedução reside não no que lembramos quando mencionamos o fascismo, que é o combate ao inimigo externo, mas no que esquecemos, que é a solidariedade e união para o bem comum. O Reich não reergueu a Alemanha baseado no ódio a eslavos, ciganos, negros, homossexuais, deficientes, testemunhas de jeová e até mesmo judeus. Reergueu baseado na solidariedade entre os germanos ou arianos. A ideologia fascista é a ideologia da supressão do conflito na sociedade, de deixar as diferenças de lado e trabalhar em torno do em comum. Seu esqueleto no armário é que todos que não se encaixam no “nós” que vai deixar as diferenças de lado e todo “nós” que se recusa a abraçar esse ideal é um inimigo do povo. O ódio e a violência são parte essencial do fascismo, mas não são sua base. Sua base é a solidariedade dentro do seleto grupo de “nós”.

Existe hoje um movimento misândrico que se abriga no guarda chuva do feminismo que se baseia na “sororidade”**, a solidariedade entre o “nós” formado pelas mulheres que “busca superar” a situação de opressão e desvantagem de gênero real, mas que trata os homens como um inimigo externo. Essa sororidade é autoritária e dogmática, usando como falácias de sustentação de seu discurso “espaço de fala” e “vivência”. Essas falácias podem defendem que apenas os membros do movimento, que compram o discurso, podem criticar o discurso, o tornando completamente impermeável a críticas externas. A superação da vergonhosa situação da mulher no Brasil e no mundo não pode no entanto ser alcançada por esse movimento misândrico pelo fato que os homens não podem ser considerados um inimigo externo. Para isso ver N. Sr, 2014.

Outra percepção falsa sobre o fascismo decorrente da demonização do nazismo é que os fascistas seriam pessoalmente cruéis e monstruosos e que a violência cometida por estes é incompatível com seres humanos éticos. A verdade é que essa concepção de moral é muito idealista para caber na sociedade. Se a aceitássemos teríamos que admitir que todos os soldados do mundo são monstros cruéis e sanguinários. Hannah Arendt percebeu a contradição entre essa ética idealista de matriz kantiana e a realidade em Eichmann em Jerusalém onde cunha o termo “banalidade do mal” para descrever este mal praticado sem remorso e sem questionamento, baseado em mecanismos sociais que o legitimam.

A violência é justificada através de vários mecanismos sociais, principalmente a desumanização do inimigo. Não é por outro motivo que a PM do rio treina marcha dizendo que “malandragem se cura com baioneta e tiro de fuzil” ou que nas guerras sempre temos apelidos depreciativos para o adversário como “boche” e “chong”, mesmo nos casos em que a guerra não é declarada, como o “pig” usado pelo movimento negro estadunidense para se referir aos policiais. Estratégias de deslegitimação do papel de sujeito masculino usadas por misandristas como “uzômi”, “machinho” e outros são estratégias similares de reduzir a subjetividade múltipla do outro a um estereótipo. Cometer violência física ou simbólica contra um estereótipo, com amplo apoio social do grupo com o qual se identifica e onde reconhece outros sujeitos é praticar a violência banalizada, sem consciência e questionamentos morais.

Assim, as “feminazi” não são pessoas cruéis, apesar de cometerem atos cruéis. Não são más apesar de cometerem o mal. São inocentes úteis que abdicaram de pensar para se sentirem aceitas e protegidas dentro do grupo de “nós”, assim como Eichmann, ou usando as palavras de WIKIPÉDIA, 2015 “A trivialização da violência corresponde, para Arendt, ao vazio de pensamento, onde a banalidade do mal se instala”.

* Não gosto de títulos com ponto final, mas esse merece.

** Soror em latim é irmã. Freiras costumam se chamar de soror mas não chamam a ordem a que pertencem de sororidade. Uma tradução desse neologismo seria “irmandade de mulheres”.

Notas finais

Não posso publicar um artigo com este teor porque estragaria meu Lattes, então não segui as normas de qualidade que o mestrado exige. Essas normas exigiriam que eu recolhesse e apresentasse ampla prova material de que misandristas cometem violência simbólica contra homens, exigiriam que recolhesse citações de psicologia social e antropologia para sustentar a afirmação de que o agrupamento em grupos fascistas pode ser motivado pelo desejo de pertencimento a uma comunidade e finalmente exigiriam que elaborasse melhor o argumento de que o fascismo se baseia na solidariedade dentro de um grupo, poque GESSINGER não é uma fonte acadêmica. Você precisará pesquisar isto por sua conta ou aceitar essas afirmações por si, porque se isso não entra no meu Lattes e a Capes não me paga para escrever, não vou escrever com o rigor que a academia espera.

Anúncios

O feminismo sem homens

É cada vez mais comum ver essa nova cepa de feministas dizer que homens não podem ser feministas e mulheres não podem ser machistas. Não tenho por hábito meter o pau onde devia ter só cintaralho, mas meu maior defeito é não suportar burrice.

(Já pode escrever o comentário cheio de ódio. De qualquer maneira vai ignorar toda a argumentação seguinte mesmo.)

Comunistas fizeram um excelente trabalho ao longo dos séculos disseminando o ódio de classe contra burgueses, como modo de motivação e educação de massas, mas por outro lado desprenderam também uma formidável quantidade de energia provando cientificamente que seria possível criar um mundo sem burgueses, e apenas por causa disso podemos considerar o comunismo coerente. O problema é que o feminismo não prescinde de homens, porque não pode ter em seu horizonte um mundo sem homens. Se os burgueses são uma pequena minoria, os homens são a maldita metade da humanidade e até onde a ciência avançou, uma das metades necessárias à reprodução, portanto elementos imprescindíveis ao sistema que não podem ser eliminados. Essa constatação, de que homens são imprescindíveis, determina pela lógica, que o sucesso do feminismo depende dos homens. Não se trata de um inimigo externo a ser vencido ou obliterado, mas de uma população interna a ser convertida. Em síntese, só é possível haver uma vitória do feminismo com homens feministas.

Claro, é possível mudar o significado das palavras e chamar homens feministas de “aliados homens” e criar algumas excrescências lógicas e semânticas, mas isto não é o importante.

O importante é ver que advogadas do feminismo sem homens tem uma estratégia totalmente alinhada com o cenário “inimigo externo”. Que professam o combate ao machismo pela força, pelo aprofundamento de mecanismos legais, pelo aumento de penas (não me espantaria em ouvir argumentos a favor da pena de morte ou castração pra estupradores), pelo esculacho público, em resumo, pela repressão e violência.

O que, como todos sabemos, não funciona.

Se o machismo é um sistema de violências institucionalizadas [menores salários, imagem na publicidade, restrição a cargos de chefia, responsabilidade dos serviços domésticos…] coroado por ações de violência individualizada [estupro, violência doméstica], é preciso reverter a situação nos dois campos e, todos sabemos, a repressão é péssima nos dois. De certo modo, se faz presente o dilema 1984/Admirável Mundo Novo. Todos sabem que AMN é mais eficiente e mais eficaz que 1984, mas os impulsos sádicos fazem com que as pessoas busquem a saída de 1984 porque ela é a que causa mais dor ao adversário, e tudo se resume a sadismo.  (inclusive a gritaria por mais polícia, mais punição e menos maioridade penal toda vez que alguém que seja “nós” (brancos, ricos, etc) morre por ação de alguém “deles” (pobres, pardos, etc).)

Algo que todos os marxianos sabem é que a estrutura precede a superestrutura, e hoje, determinar uma cota para mulheres em cargos de chefia nas empresas públicas e privadas e no parlamento, reverter a ridícula taxa de guarda materna em divórcios e estabelecer uma política de educação sexual decente fariam muito mais efeito que estratégias repressivas. Assim como o direito ao voto no Reino Unido esteve associado diretamente ao esforço de guerra que descortinou a visão inédita para a burguesia imperial que mulheres são gente (operárias sempre trabalharam, mas operárias/os não são gente para a burguesia), uma mudança concreta nas condições materiais, subvertendo os papéis de gênero tradicionais e uma mudança no mecanismo por excelência de fabricação de superestrutura, a escola, seriam a estratégia mais efetiva para superar o machismo.

O problema é que isto não faz ninguém sofrer. Não expõe ninguém à execração pública. Não joga ninguém na cadeia e deixa apodrecendo até o fim dos tempos.

O movimento tem então sido  mais e mais agressivo contra os homens, torando cada vez mais difícil ser um “aliado homem”, o que hoje em dia é sinônimo de subserviência intelectual total, e atraído mais e mais raiva e rancor. Isso tudo sem avançar em relação a bandeiras como representação política, fundamental para conquistar mais avanços.

Homens vão continuar aqui. É preciso construir uma estratégia de enfrentamento do machismo que não nos hostilize ou aliene, porque não somos o inimigo externo e vamos continuar aqui.

Claro, isto é “mansplaning”, da pior qualidade aliás.

Corpo, a falsa fronteira

O corpo é o debate mais difícil para a filosofia, porque a filosofia não entende os corpos. Óbvios ululantes ditos, constatemos que os corpos são a fronteira da vez e há sessenta anos. Movimentos e militantes do amor livre, do feminismo pequeno burguês, do transfeminismo, d(o)(a)(os)(as) queer, dos gordos, dos deficientes “anticapacitistas”, da bodyart, bodymodification, bodyfight. O corpo é o modo de expressão por excelência de toda uma geração que pensa graficamente e se expressa graficamente através de seus corpos. O corpo tem uma linguagem própria, uma semiótica própria; que não usa palavras ou signos que a filosofia compreenda por completo; e usa essas particularidades para construir significado.

Mas o corpo não significa nada. Nada que não tenhamos feito previamente ele significar, e isto é o curioso.

A civilização ocidental, cada vez mais corpórea e menos linguística age como se o corpo tivesse relevância e significado por si, mas o significado é construído não no campo dos corpos, mas da filosofia.  As relações sociais que dão sentido aos corpos e os transformam em tela para uma geração afásica são silenciadas pelo foco no corpo como espaço de identidade e expressão. Em um curioso tipo de neoyoga se pretende transformar a normatização social através da liberdade dos corpos, como se fossem estes a definir a normatização social ou como se os processos retroalimentativos yogásticos tivessem alguma evidência de efetividade.

O corpo, matéria plástica, tela branca, tábula rasa para a expressão não suporta sentidos vindos de uma linguagem infinitamente mais complexa, a dos cérebros. As tatuagens e a moda se moldam à identidades grupais anarquistas e noenazistas mas servem apenas como ferramenta de identificação e conhecimento, sem conseguir traduzir significado do que seja punk ou skinhead. Porém, ano após ano de supremacia do corpo a identidade se resume mais e mais à plasticidade e se distancia mais do significado, se torna uma capa a ser usada, trocada, intercambiada sobre o mesmo cérebro. Transitar pelo queer sem precisar questionar o patriarcado e o racismo, visitar o punk sem precisar ouvir sobre repressão, exclusão e estratificação social.

O presente é clubber e indie, uma identificação plástica, estética e asemiótica, essencialmente corpórea, para ser usada como máscara da velha mentalidade das cavernas. O presente é a identidade que não identifica, que circula por circuitos de lazer e realizações de personalidade mediadas por consumo de fetiches dentro do sistema, nas frestas do sistema agrupadas como lazer. O presente é a ofuscação dos significados e sentidos do cérebro pela sensação de identidade asemiótica dos corpos.

A luta do presente se perde com o (trans)feminismo desejando vender com igualdade o corpo para o mercado de trabalho que diz que não tem moldes para ele, mas que não questiona a existência do mercado de trabalho. Se perde com o desejo de dreads, bermudas e barbas para os escravos corporativos dos bancos, sem questionar os bancos. A revolta do presente é pelo direto da existência da diferenciação do  corpo, pela aceitação de aparências, que não significam nada, que não transformam os significados por trás das plasticidades cada vez mais vazias. O presente é a luta por jaulas que aceitem novas formas, não contra jaulas.

Jeanine Serviços – Pt 3

“Eu quero pedir vistas desse convênio.”

“Se alguém se opuser ao pedido de vistas que se manifeste.”

“Me oponho.”

“Vereador Amil, a palavra para defender o pedido de vistas.”

“Há denúncias de que a associação tem problemas na prestação de contas. Nós, enquanto vereadores, não podemos ser irresponsáveis e aprovar um convênio que tem suspeita de irregularidades. Nossa obrigação é investigar a matéria com calma, porque depois de aprovado o convênio não há nada que se possa fazer. É melhor um pouco de paciência, para fazer as coisas direito que se arrepender depois.”

“Vereador Lourival, a palavra para defender que as vistas não ocorram.”

“Ilustre colega Amil, me emociona que você esteja tão preocupado com os recursos públicos, e concordaria com o pedido e vistas alegremente. Isso se a prestação de contas não tivesse dado entrada nessa casa duas semanas atrás. Se durante essas duas semanas vossa excelência tivesse gastado cinco minutos de sua preciosa agenda para procurar a comissão, ou eu, ou qualquer vereador que teve acesso à documentação, saberia que não há nenhuma irregularidade. O pedido de vistas se justifica quando o vereador necessita de mais tempo para conhecer a matéria, e compreendo que sua agenda não tenha permitido ler a prestação de contas nesses quinze dias, mas quero ressaltar que a maior parte da casa está ciente de que não há erro ou problemas com essa prestação de contas e este pedido de vistas significa atraso na renovação do convênio, o que se traduz em salários atrasados para os trabalhadores e atividades interrompidas para a população. Se me permite a sugestão, da próxima vez, se inteire da matéria enquanto ela tramita, e não quando ela chega à ordem do dia.”

“E mesmo que se encontre irregularidades depois do convênio renovado, o Ministério Público pode ser acionado a qualquer momento. Sugiro todos a aprovarem a renovação hoje, analisar a prestação de contas em detalhes amanhã e caso haja alguma irregularidade formalizar uma denúncia ao ministério público.”

“Procedendo à votação aberta…”

Tinha arrastado Júlia para o gabinete depois da sessão. Tensa, mas feliz. Contas aprovadas, convênio renovado.

“Olha, eu preciso perguntar, mesmo tendo certeza da resposta. Tem alguma coisa errada com a prestação de contas?”

“Você não leu?” Incrédula. Por que? Claro que leu, mas…

“Dei uma lida por alto, não analisei procurando erros.”

“Então como você… O que você disse na sessão…” O que tinha de errado com ela? Balbuciando como que diante de um mistério divino.

“Nós somos um partido unido e unitário.” Se não pudermos contar uns com os outros, com quem podemos?”

“Você é doido!” Não!

“Nós somos um partido unido e unitário!” O que é tão difícil de entender nisso?

“Não, não tem problema com a prestação. O dossiê veio incompleto da Prefeitura, esqueceram de copiar umas páginas, umas notas, mas isso a gente resolveu semana passada.”

“Pode vir aqui apresentar a prestação de conta amanhã?”

“Por que você fez isso? Se não sabia se a prestação tinha irregularidades… Você arriscou muito.”

“Você é minha amiga. Eu confio em você. Você é do partido. Eu confio em você. Se a gente não se defender, quem vai?”

“Eu quero um imeeeenso favor.” Bajule, exagere, finja que não o odeia com todas as forças do fígado. Funciona.

“Ôoo Lou, se estiver ao meu alcance.” Hipócrita!

“Dez minutos da sessão de hoje, para esclarecer tudo, apresentar todas as irregularidades que houve na prefeitura.”

“Houve irregularidades então?” Feliz como a criança que descobre a Nutela. Porco.

“Contabilizei quatro crimes na confissão.”

“Vou fazer o possível. Sabe, mesmo sendo o presidente isso tudo tem que ser aprovado pelo plenário.” Já tinha aceito. Enfrentaria o capeta para permitir que confessasse diante do plenário cheio.

“Sei como é. Já fui presidente, lembra?” Toma! Desgraçado. “Muito obrigado! Estou aí às cinco.”

“Obrigado você. Até mais.”

“Até, Amil.”

Desde o convênio nunca mais estiveram do mesmo lado. Não que estivessem entes. Sua visão elitista, higienista, evangélica de sociedade limpa, asséptica, homogênea. A batalha em torno do programa de apoio à internação de dependentes químicos. O estado podia até estar se tornando menos e menos patrimonialista ano a ano, mas as igrejas mais e mais, se apropriando até de leis, normas como patrimônio. Fosse apenas dinheiro…

Agora precisava ligar para outros. Chamar aliados. Montar a resistência. Cometer erros para o futuro. Não haveria de ser apenas os anteriores, não é?

Precisava comer. A noite inteira, trancado no quarto, escrevendo o discurso, refazendo partes. Convocar os aliados poderia esperar o café.

Há serenidade em ter uma estratégia. Há segurança em saber que tem aliados. Coisas que mantém o trem longe, ia precisar do trem longe. “É a luta contra o adversário que mantém a pureza dos propósitos”, tinha lido em algum lugar.

“Boa noite ao povo presente nesta casa, inclusive aos que exercem mandatos eletivos.” Há quanto tempo não falava isso. Pareciam décadas, mas apenas três anos no governo.

Amil havia posto em votação lhe concederem 10 minutos como tribuno antes do pequeno expediente e, claro, haviam concedido o tempo.

“Estou aqui para confessar e explicar crimes que cometi na administração pública. Três para ser mais específico.” Casa cheia, burburinho. Daniela, câmera montada, transmitia pela internet para a NãoTV. Os militantes do partido, da juventude, lotavam as galerias e ouviam as palavras com espanto e descrédito. Ricardo e Janete, vereadores do partido, dentro do plenário e igualmente espantados.

“Quando assumimos a prefeitura há três anos, tínhamos uma situação bizarra. Tínhamos dinheiro e não podíamos gastar. Não com o que realmente importava. Gastávamos meio milhão por mês para que uma empresa terceirizada contratasse os médicos que contrataríamos por cem mil a menos. Conseguíamos fazer reformas nas escolas, mas não pagar bem os professores. Estávamos enforcados pelo limite de gasto de pessoal da Lei de Responsabilidade Fiscal, a maior praga que atormenta a administração pública hoje.”

Caras de paisagem. Ninguém entendia nada.

“Quando foi criada, sob os anos negros de FHC, o limite de 54% de gasto com pessoal talvez fizesse sentido. Mas a partir de 2007, a partir da criação do PAC, programa de aceleração do Crescimento, e principalmente a partir de 2010 com o PAC2, com muitos projetos e liberações já prontos esse limite se tornou muito baixo. As prefeituras conseguiam captar dinheiro para investimento com o governo federal, reduzindo seu gasto em estrutura, mas limitados pelos mesmos 54%. E o dinheiro captado não entra na base de cálculo desses 54%, que são só sobre a arrecadação direta e indireta, enquanto os recursos do PAC são receitas de capital.”

Uma ou outra pessoa não estava boiando, mas sem conseguir fazer a ligação. Tinha se acostumado com isso. Tinham se acostumado com isso. Ao menos é o que os alunos diziam na faculdade.

“Por isto a Jeanine Serviços e outras empresas foram criadas. Para aumentar a receita corrente líquida, para pagar mais impostos municipais e aumentar o dinheiro que esses 54% representavam. São empresas de fachada, que não existem no mundo real, em nome de laranjas. E este é o primeiro crime: fraude documental.”

Júlia captou, Ricardo também. Possível ler suas expressões. Quantos mais entenderam? Amil parecia boiando. Entre os outros vereadores nenhum com a luz do entendimento nos olhos.

“Como eu não tenho dinheiro o bastante para pagar impostos o bastante para aumentar o limite de gasto de pessoal, fiz estas empresas ganharem licitações fantasma, para serviços que não seriam prestados. Elas recebiam os pagamentos da prefeitura, para logo em seguida devolver esse pagamento como impostos devidos por uma série de outras atividades declaradas, principalmente ISS, mas também IPTU sobre terrenos inexistentes que incluí no sistema, e este é o segundo crime, fraude licitatória.”

O pânico tomou conta do rosto de Amil; finalmente tinha entendido. Assim como o alívio do rosto das dezenas de militantes. Mesmo Daniela que tinha ajudado a montar o palco, feito os contatos virtuais, convocado a militância, não sabia o que exatamente diria.

“Ao todo, Jeanine e suas irmãs receberam um milhão e duzentos mil por ano e pagaram em impostos um pouco mais que isso. Nesses três anos tive que investir doze mil do meu bolso para fechar as contas dessas empresas. Isso nos permitiu aumentar o gasto de pessoal em quase seiscentos e cinquenta mil por ano, ou cinquenta e quatro mil por mês, permitiu que toda a cidade fosse coberta pelo programa saúde da família, permitiu que todos os professores fossem bem pagos, permitiu que o salário mais baixo dos servidores, que era o salário mínimo quando assumimos, fosse dobrado. E mesmo assim o tribunal de contas, todo ano nos repreende por estarmos perigosamente no limite do gasto de pessoal, e este é o meu terceiro crime, dentro da lógica do sistema capitalista e elitista brasileiro, governar para o povo.”

Marcos não tinha ido, como era de se esperar, sua posição não permitia, mas onde quer que estivesse, via a quê devia os êxitos da gestão. Como estaria reagindo?

“Agora, que a Polícia Federal descobriu minha contabilidade criativa, a prefeitura pode ser obrigada a demitir, reduzir salários e sucatear o atendimento a vocês. O tribunal de contas, pode provar mais uma vez que é um poder elitista, a serviço do atraso e contra o povo e obrigar o corte de gastos com serviços públicos e obrigar a prefeitura a terceirizar serviços como fazia antes. Forçar o poder público a não valorizar o servidor e não investir nas carreiras de estado.”

Metade dos vereadores se remexia desconfortável em suas cadeiras. Tinha bloqueado caminhos para sua oposição tacanha. Ricardo parecia planejar o próximo passo. Janete parecia empolgada. Tinha escolhido bem em recomendar que Daniela usasse o gabinete dela para as convocações.

“Preciso ressaltar, que o gasto atual com pessoal é perfeitamente sustentável. Que o endividamento do município é todo direcionado a investimentos, e que não precisamos de empréstimos para arcar com a folha de pagamento ou mesmo com o pagamento das dívidas, como qualquer contador pode declarar, como o tribunal de contas têm declarado e como os vereadores aqui presentes tem constatado a cada orçamento que enviamos para esta casa. Preciso ressaltar, que ninguém mais na administração ou no partido sabia disso. Marcos nunca soube desse esquema e tudo que ele disse em sua entrevista mais cedo é verdade. Preciso ressaltar, que a luta que começo a lutar hoje não é pela minha liberdade, mas pela manutenção da excelência nos serviços públicos que conquistamos nestes três anos.”

Iriam procurar uma ovelha de sacrifício. Precisavam de uma, e precisava inocentar Marcos. Precisava também de uma saída. Precisava não ser a ovelha e a única forma e se transformar em herói.

“Preciso ressaltar que por causa da autoritária e antidemocrática lei Ficha Limpa, posso ser proibido de sequer disputar qualquer eleição se for condenado em primeira instância pelo tribunal de contas, que é uma corte colegiada, submissa a um governador que odeia meu partido. Preciso, diante dessa que talvez seja minha última oportunidade, colocar meu nome à disposição do partido para a sucessão municipal, e continuar a batalha pelo povo, custe o que custar.”

“Obrigado.”

Perplexos. Todos. Ninguém sabia como reagir, ninguém esperava o movimento. Daniela foi a primeira a mostrar reação, talvez porque tivesse participado do congresso estudantil em que lhe entregou a direção do DCE e já tivesse ouvido o grito de guerra, metade do movimento estudantil é fabricar gritos de guerra.

“Lou! Lou! Lou! Lou! Lou!” começou a puxar, braço em riste, punho cerrado, no ritmo da voz. E começou a ser seguida por cada vez mais gente. Uma sílaba apenas. Tudo que precisavam. Uma sílaba em crescendo, ressonando nas galerias, mais do que qualquer vereador já tenha recebido em aplauso na história da casa. Os jornalistas olhavam a cena, estarrecidos. Mais ainda quando viram Janete e depois Ricardo, se levantarem e endossarem o coro. Os outros vereadores, encolhidos não sabiam o que fazer. Ergueu o punho esquerdo, cerrado, sorrindo, extático, apoteótico. Amil pediu “silêncio” no microfone, inutilmente, e de novo. Pela primeira vez em tantos congressos, encontros e atividades que tinham estado juntos viu o punho cerrado e a boca aberta de Júlia. A campainha ainda demoraria minutos para tocar indicando o fim do tempo, mas gritou ao microfone “Até a vitória! Sempre.” para despertar uma nova onda quando ela começava a arrefecer, e desceu do púlpito para voltar à galeria, para o povo, passando pelos jornalistas que sequer conseguiram se postar em seu caminho para fazer perguntas.

“O povo, o povo, o povo aqui está! Quem não está com o povo, para o povo perderá!” gritou no ouvido de Daniela. Que passou adiante, que em pouco tempo substituiu o chamado anterior. Uma lembrança para os vereadores levarem para casa. Para moderar o pequeno expediente. Para refrescar a memória nestes de escolherem lados. Amil repetia “silêncio” com certa regularidade. Antes que fosse obedecido, a represa quebrou. Pâmela levantou e entrou no coro. Tinham conversado muito na legislatura passada, se davam bem, mas não eram do mesmo partido. Antônio seguiu pela brecha da represa. A posição da oposição desmanchava um pouco de cada vez. Antes que o cronômetro chegasse aos dez minutos nove dos dezessete vereadores gritavam seu lado a favor do povo. Alguns por oportunismo, outros por medo, mas agora, todos comprometidos. Agora, todos do seu lado. A campainha soou e amil, fingindo não haver nada de excepcional, deu prosseguimento a ordem do dia.

“Passo a palavra a sua excelência vereador Jonas, primeiro inscrito no pequeno expediente.”

Como se estivesse de novo em um congresso, subiu no alambrado, fazendo o sinal “senta”, sacudindo os braços estendidos, palmas para baixo, e o som acabou como mágica.

O telefone vibrou em seu bolso, quase previsivelmente. Os jornalistas se levantaram todos, rumando para a galeria. Seria a estrela por um tempo.